jueves, 24 de octubre de 2013

GUIANA E SURINAME: UMA OUTRA AMÉRICA DO SUL

http://www.ufrgs.br/nerint/folder/artigos/artigo2.pdf

GUIANA E SURINAME: UMA OUTRA AMÉRICA DO SUL 
Tomado de:

Ao Emb. K. Nandoe, 

um cosmopolita do Sul. 

Paulo Fagundes Visentini* 
A Guiana e o Suriname são os dois Estados mais novos e menos povoados da América do Sul e estão entre os de menor dimensão territorial. Além disso, ambos se caracterizam por uma composição etno-cultural extremamente complexa e diversa, por idiomas distintos dos demais países sul-americanos e por uma inserção voltada para o Caribe e, ainda, em certa medida, para as ex-metrópoles. Trata-se de países ainda fragilmente conectados com aos seus vizinhos terrestres e, apesar de possuírem grandes possibilidades produtivas (especialmente nos setores mineral e energético), a economia ainda é rudimentar e carente de infra-estrutura de transportes e energia. 

Tudo isso permite caracterizá-los como "uma outra América do Sul", distinta da platina e da andina. Nesse contexto, representam, portanto, um desafio à política externa brasileira e uma espécie de "nova fronteira" do processo de integração sul-americano. Além disso, o curto período de vida independente (a Guiana quatro décadas e o Suriname três) foi caracterizado por forte instabilidade política. Regimes autoritários e experiências com modelos alternativos, em meio ao declínio econômico, se alternaram com frágeis democracias parlamentares, marcadas por um baixo índice de governabilidade, pela fragmentação partidária e, muitas vezes, pela semi-paralisia administrativa por parte do Estado. No plano externo também há graves problemas, pois ambos países possuem os mais graves e extensos litígios fronteiriços da América do Sul: Guiana-Venezuela, Guiana-Suriname e Suriname- Guiana francesa. Além disso, a diplomacia conheceu, logo após a independência, uma linha errática e marcada por rupturas. 

O baixo nível de vida (a Guiana tem a menor renda per capita sul-americana), as deficiências estruturais e o elevado índice de desemprego, todavia, podem ser indicadores enganosos, na medida em que o petróleo começa a ser explorado (especialmente no Suriname) e outros minerais, como ferro e ouro, também, além dos projetos hidroelétricos. Mas para a potencialidade econômica transformar-se em realidade, é necessário maior apoio externo. E, nesse sentido, ambos paises começam dar-se conta de que a cooperação com o Caribe, os Estados Unidos e a Europa tem de ser acompanhada por uma integração com os vizinhos terrestres. Assim, quanto mais o desenvolvimento for interiorizado, maior relevância ganharão as relações trans-fronteiriças e a integração regional, inclusive com a necessidade de enfrentar as ameaças transnacionais que acompanham o processo. 

1. A colonização e a formação sócio-cultural 
Juntamente com a Guiana francesa, que é parte integrante da França e da União Européia, a Guiana (ex-inglesa) e o Suriname (ex-Guiana holandesa) formam uma região geopolítica própria, as Guianas, voltadas para o Caribe e, apesar de cobertas pela floresta amazônica, se encontram separadas da Bacia amazônica pelo planalto das Guianas, cujos picos mais elevados chegam a atingir três mil metros de altitude. A Guiana possui uma 

*Paulo G. Fagundes Visentini. Professor Titular de Relações Internacionais da UFRGS, Pós-Doutorado pela 
 London School of Economics. (paulovi@ufrgs.br

superfície de 215 mil km2 e uma população de 800 mil habitantes, enquanto o Suriname  abrange, respectivamente, 163 mil km2 e 450 mil habitantes. Mais de 90% da população se concentra na faixa litorânea, tendo o interior uma população extremamente rarefeita. A Guiana Francesa possui uma superfície de 91 mil km2 e uma população de 170 mil habitantes. 

Essa situação é explicada facilmente pela estrutura da colonização inglesa e holandesa. Os navegadores espanhóis e portugueses, que exploraram as costas, não se interessaram em colonizá-las, o que foi feito pelos holandeses, que estabeleceram assentamentos agrícolas na desembocadura dos rios dos dois países, sendo o primeiro deles no Essequibo, em 1616. As colônias, voltadas aos cultivos tropicais (especialmente o açúcar) e à exploração da madeira e outros recursos naturais, tardaram a prosperar, devido às epidemias e aos ataques dos índios Caribes e Arawaks, os habitantes autóctones. Em 1796, durante a Revolução Francesa, os ingleses ocuparam as colônias ocidentais, situação que foi reconhecida pela Holanda em 1814, a qual manteve apenas o litoral do atual Suriname, enquanto Portugal ocupou temporariamente a Guiana Francesa durante as guerras napoleônicas. 

A carência de mão de obra para as plantations levou os colonizadores a introduzir escravos africanos, muitos dos quais se revoltaram (desde a rebelião liderada por Cuffi), fugindo para a floresta, onde os Maroons (como ficaram conhecidos) criaram sociedades baseadas nas estruturas sócio-políticas da África ocidental. Com a abolição do tráfico, os ingleses trouxeram trabalhadores chineses e indianos a partir da década de 1830, na condição de Indenture Servants, o que também foi feito pelos holandeses a partir da década de 1870 com indianos e indonésios, especialmente javaneses. 

Assim, foram sendo formadas sociedades multiétnicas e multiculturais, com uma ampla variedade racial, lingüística e religiosa. Ameríndios de vários grupos (especialmente no interior), afro-descendentes assimilados nas plantações e cidades, "negros da floresta", indianos de várias origens (de religião hindu e muçulmana), indonésios javaneses  (muçulmanos), chineses, ingleses e holandeses, além de mestiços, constituem as principais comunidades. As elites são relativamente permeáveis aos casamentos mistos, mas em geral cada grupo mantém forte identidade, havendo pouca mestiçagem. Posteriormente, a  constituição dos movimentos e partidos políticos foi fortemente assentada em linhas étnicas. 

Atualmente a Guiana possui uma população de 800 mil habitantes (já foi de mais de um milhão em 1980), com uma expectativa de vida de 62 anos, um crescimento anual de 1,6% e uma densidade de 3,3 habitantes por km2. Em termos religiosos os cristãos representam 50% da população (33% protestantes e 17% católicos), os hinduístas 34% e os muçulmanos 9%. Etnicamente, os hindus constituem 50% da população, os afro-descendentes 33% e os 17% restantes são ameríndios, mestiços, chineses e europeus. Apenas 32% da população é urbana e Georgetown, a capital, conta com 234 mil habitantes. O PIB é 1,1 bilhões de dólares, com uma renda per capita de apenas 1.375 dólares. Os idiomas são o inglês, o hindi e o urdu, com um analfabetismo de 3%. 

Já o Suriname conta, hoje, com uma população de 493 mil habitantes (há quase 10% de brasileiros, a maioria clandestinos), com uma expectativa de vida de 71 anos, um crescimento anual de 1,3% e uma densidade de 2,6 habitantes por km2. Quanto à religião os cristãos representam 44% da população (23% protestantes e 21% católicos), os hinduístas 26%, os muçulmanos 19% e os cultos tradicionais ameríndios 5%. Etnicamente, os indo- paquistaneses constituem 37% da população, os mestiços 30%, os indonésios (javaneses) 16%, os afro-descendentes 10%, os ameríndios 3%, os chineses 2% e os europeus 1%. Metade da população é urbana e Paramaribo, a capital, conta com 243 mil habitantes. O PIB é 1,5 bilhões de dólares, com uma renda per capita de apenas 3.102 dólares. Os idiomas são o holandês (oficial), o hindi, o javanês, o crioulo, o francês e o inglês, com uma taxa de analfabetismo de 8%. 

No final do século XIX, à medida em que os custos da mão de obra aumentavam e as  metrópoles criavam imensos impérios coloniais na África, Ásia e Oceania, as plantations tradicionais declinavam. O açúcar, o café e o cacau cederam parte de seu lugar às exportações de arroz, bananas e cítricos, mas a grande novidade foi o início da exploração da bauxita para a fabricação de alumínio durante a Primeira Guerra Mundial, nos dois países. Durante a Segunda Guerra Mundial, para exemplificar a importância do novo ciclo econômico, 75% das importações norte-americanas de bauxita eram provenientes do Suriname. Em ambos paises a exploração era feita por empresas transnacionais, como a ALCOA, empresa dos Estados Unidos. 

2. O nacionalismo e a independência tardia 
O processo de descolonização foi mais precoce nos paises asiáticos e africanos, dado que a existência de uma população autóctone, com tradições históricas e culturais que antecediam o colonialismo, era uma condição importante para a articulação de forças políticas independentistas e de uma consciência nacional. Já o caso das Guianas era mais complexo, pois a maioria esmagadora da população era imigrante, justamente do período colonial. Além disso, o caráter multiétnico e multicultural da sociedade representava um obstáculo adicional, pois a relação de cada grupo com o colonizador era diferenciada. Assim, nas Guianas e no Caribe o processo de descolonização foi, comparativamente, tardio. 

Na Guiana, o movimento pela independência ganhou impulso após a Segunda Guerra Mundial, através do Partido Popular Progressista (PPP), organização multi-étnica que defendia uma plataforma de independência nacional e reformas sociais de matizes socialistas, fundado em 1950. O líder do PPP, Cheddi Jagan, foi eleito para o cargo de primeiro ministro em 1953, 1957 e 1961, nos marcos de um regime de autonomia concedido pela Inglaterra em 1953. Temendo a agitação popular, os comunistas e a radicalização esquerdista do PPP, os  ingleses suspendem a Constituição em 1957. Frente à pressão popular, em 1961 é concedida autonomia total e com a maioria do PPP na Assembléia, uma nova Constituição é promulgada e Jagan reeleito. 

Paralelamente, ocorre em 1955 uma cisão no PPP, com a criação do Congresso Nacional do Povo (PNC), liderado por Forbes Burnham, com base étnica nos afro- descendentes. Os indianos continuam vinculados ao PPP de Cheddi Jagan.

Todavia, as razões da divisão não foram exclusivamente comunitárias, pois as empresas estrangeiras, especialmente norte-americanas, temiam o movimento de Jagan e contribuíram para a ascensão de uma liderança rival. Entre 1962 e 1964 crescem os confrontos entre os partidários do PPP e do PNC e em 1964 Burnham se torna primeiro ministro, com apoio de outras minorias, nucleadas na Força Unida. Seguem-se violentos conflitos comunitários, que levam os britânicos a intervir e, na seqüência, a conceder a independência completa à Guiana em 25 de maio de 1966, dentro da Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth). Em 1968 Burnham é reeleito e, em 1970, para surpresa de muito, transforma a Guiana na primeira "República Cooperativa" do mundo. 

O vizinho Suriname, então Guiana Holandesa, tem, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um movimento nacionalista ativo pois, da mesma forma que a Inglaterra, a Holanda saíra do conflito bastante enfraquecida. O National Party Kombination (NPK), de base predominantemente criola, era uma frente de quatro partidos de esquerda que defendia uma plataforma independentista desde 1945. O rival Vatan Hifkanie, partido liderado por Jaggernauth Lachmon e dominado por comerciantes e empresários indianos, desejava, por outro lado, adiar a independência. Em 1954, no contexto das negociações com a Indonésia, é concedida autonomia dentro do Reino Tripartido da Holanda, com a concessão de cidadania holandesa a grande parte da população. 

Em 1973 o independentista Partido Nacional do Suriname (NPS), de certa forma  sucessor do NPK, de base criola e liderado pelo liberal Hinck Arron, vence as eleições, tornando-se primeiro ministro. Com apoio de Lachmon, a independência foi proclamada em 25 de novembro de 1975, com consentimento holandês. Um terço da população, detentora de cidadania holandesa e que incluía a maioria da classe média, aproveitou a oportunidade para se transferir para a ex-metrópole. Isto causou uma aguda falta de quadros técnicos e administrativos no novo pais, ocasionando a estagnação e retrocesso da produção, especialmente da agricultura. Apenas as empresas transnacionais Suralco e Billiton, que monopolizavam a exploração de Bauxita, seguiam funcionando regularmente e, assim, dominando a economia do pais. Mesmo assim, em 1977 Arron foi reeleito. 

O pais foi estruturado como uma democracia parlamentar e sistema de partidos, constituído durante a fase de autonomia, foi consolidado, representando, sobretudo, os grupos étnicos: Partido Nacional do Suriname (NPS), de base criola; Progressive Reform Party, apoiado pelo hindus; Indonesian Peasant's Party, de base javanesa; e o pequeno Partij Nationalistische Republiek (PNR), esquerdista e independentista. Tanto a Guiana como o Suriname ascenderam à independência durante um período caracterizado pela ascensão do terceiro-mundismo e do Movimento dos Paises Não Alinhados, o que se refletiu na vida política de ambas nações. 

3. A difícil consolidação do Estado-nação 
Como foi visto, pouco tempo após a independência, o governo Burnham realizou uma inflexão à esquerda. Em 1970 proclamou a República Cooperativa da Guiana, de tendência socializante, procedendo à nacionalização da economia e à adesão ao não-alinhamento.

 Em 1973 mobilizou as massas numa "Revolução Cultural", introduzindo o Programa conhecido como National Service, com o objetivo de aumentar a auto-estima dos guianenses. Brigadas  atuavam em tarefas destinadas a dotar a população de alimentação, vestuário e moradia, além de haver sido criada uma milícia popular para defender a Revolução.

Em 1976, três quartos da economia estava controlada diretamente pelo Estado, e os elevados preços dos produtos de exportação do pais no mercado internacional permitiram ao governo aumentar os gastos públicos, especialmente na área social. Entre 1970 e 1975 a economia cresceu num ritmo superior a 4% ao ano. 

A orientação da política externa, que até então era direcionada ao mundo anglo-saxão, especialmente em direção ao Caribe anglófono, ganhou uma dimensão ideológica. Desde 1965 a Guiana integrava a CARIFTA (Caribbean Free Trade Association), que em 1973 se transformou em CARICOM, mas a orientação diplomática pró-norte-americana de Burnham, em 1970, enveredou para o não-alinhamento (a Cúpula de 1972 do MNA foi sediada em Georgetown), causas terceiro-mundistas e cooperação com os paises socialistas, com reconhecimento diplomático e certa cooperação econômica com a URSS, o leste europeu e Cuba. Tratava-se, entre outras coisas, de uma forma de esvaziar a plataforma esquerdista do rival PPP, de forte ressonância popular. A América Latina, por sua vez, estava ausente da agenda de política externa de Georgetown. A diplomacia guianense se pautava por cinco princípios: 1) não-alinhamento; 2) apoio às causas progressistas mundiais; 3) unidade econômica do Caribe anglófono; 4) militância anti-Apartheid; e 5) integridade territorial face aos litígios fronteiriços com a Venezuela e o Suriname. 

Em 1962 a Venezuela manifestou o desejo de rever o acordo de fronteira de 1899 sobre a região de Essequibo, que representava mais da metade do território da Guiana. A independência de um frágil pais que se avizinhava, atiçou a ambição venezuelana, que não teria mais de tratar com a poderosa Inglaterra. Em 1967 vetou o ingresso do pais na OEA e em janeiro de 1969 fomentou a rebelião de fazendeiros e indígenas no sul da região em litígio

Os rebeldes assassinaram vários policiais e o governo revidou enviando o exército, que  arrasou aldeias e fazendas, expulsando-os. A Venezuela viu-se isolada internacionalmente e, no ano seguinte, firmou o Protocolo de Port-of-Spain, que definia uma moratória de vinte anos para o litígio. A tensão retornou em 1981, quando o presidente Luis Herrera Campins recusou-se a renovar o Protocolo. 

Contudo, a Guerra das Malvinas em 1982 e a invasão americana à ilha de Granada em 1983 (Burham era aliado de Maurice Bishop e seu Partido New Jewel) criaram novas condições para a cooperação entre os dois paises. As relações com os Estados Unidos, por sua vez, eram difíceis, pois Washington acusava a Guiana de permitir a escala, no aeroporto de Timehri, dos aviões cubanos que levavam tropas para Angola. As relações bilaterais, depois de melhorarem durante o governo Carter, voltaram a piorar com a chegada de Reagan ao poder. Aliás, a presença de cubanos no pais preocupava o regime militar brasileiro, que ofereceu ajuda em troca da expulsão destes. A Guiana foi signatária da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, estabelecida em 1978 (o pais também integra o SELA). A construção da rodovia Manaus-Georgetown foi iniciada, sendo concluída e pavimentada vários anos mais tarde. 

Em 1976 Cheddi Jagan e seu PPP voltaram a integrar o parlamento, abandonando a postura de boicote e propondo uma unidade nacional anti-imperialista. Mas com a proclamação da nova Constituição, voltaram a abandonar o parlamento. Paralelamente, o pais viveu situações que complicaram a legitimidade internacional do regime. O pastor Jim Jones, líder da seita Templo do Povo de Cristo, transferiu mil integrantes desta religião de São Francisco para uma comunidade agrícola utópica (Jonestown), perto de Port Kaytuma. O regime aprovava a experiência como um modelo de comunidade agrícola e a posse de armamento pela seita, cujos abusos levaram o congressista norte-americano Leo Ryan a investigá-la in loco. Ao se retirar, ele foi assassinado por seguidores de Jones, os quais, face à repercussão internacional, cometeram suicídio coletivo (Jones e mais 900 pessoas) em  novembro de 1978. 

Em 1980 Burnham foi reeleito por meios fraudulentos, enquanto a economia entrava em crise, devido ao declínio dos preços internacionais dos produtos de exportação do pais, tais como a bauxita, o açúcar e o arroz. Além disso, Walter Rodney, um intelectual esquerdista de prestígio mundial, que havia fundado a opositora Aliança do Povo Trabalhador, morreu quando uma bomba explodiu seu automóvel, num episódio nunca esclarecido, mas que incriminava o regime. A crise da dívida, por sua vez, atingiu a Guiana em cheio, levando-a a suspender o pagamento do serviço em 1981.

Crescia a economia informal e o país dependia cada vez mais da remessa de divisas pela diáspora. Neste contexto de crise, Burnham assinou um acordo com o FMI e permitiu às empresas transnacionais explorar as recém descobertas jazidas de petróleo e urânio, num quadro de uma inflexão em direção ao capitalismo liberal e de uma acentuada emigração, com acentuada perda de quadros qualificados (764 mil pessoas abandonaram a Guiana). O pais carecia de infra- estruturas básicas e de geração de energia. 

Mas Burnham morreu subitamente em 1985, sendo substituído por Desmund Hoyte. Nas eleições do mesmo ano, o PNC vence as eleições com 78% dos votos, em meio à denúncia de fraude. Cinco dos seis partidos opositores criam, então, a Coalizão Patriótica pela Democracia, que boicotou o parlamento.

Hoyte, eleito presidente, anunciou em janeiro de 1987 o retorno ao Socialismo Cooperativo, como forma de esvaziar a plataforma oposicionista. Mas a crise econômica e os crescentes protestos levaram o governo a decretar Estado de Emergência em dezembro de 1991, por seis meses. Neste período, a população declinou de um milhão em 1989 para 800 mil em 1992, por efeito da emigração. Em outubro de 1992, Cheddi Jagan do PPP derrotou Hoyte do PNC, obtendo 54% dos votos, contra 41%. 
Em 1990 a Guiana já havia ingressado na OEA, com a Venezuela tendo levantado seu veto. 

No Suriname, carente de quadros devido à emigração de aproximadamente um terço  da população, a situação econômica foi precária na segunda metade dos anos 1970.

A exploração de quase toda a bauxita por uma única companhia, a norte-americana ALCOA, gerava ressentimentos, pois ela era responsável por quase toda a exportação do pais. Uma imensa hidrelétrica foi construída para gerar a energia necessária para transformar a bauxita em alumínio. Neste quadro, em 25 de fevereiro de 1980, um grupo de dezesseis sub-oficiais, liderados por Desiré Delano (Desi) Bouterse, acusando o governo de ineficiência desencadeou um Golpe de Estado (a "Revolução dos Sargentos"). Um ano depois o governo interino é derrubado, sob acusação de ser demasiadamente voltado para a Holanda e os Estados Unidos, com Bouterse se tornando presidente. Este personagem de comportamento errático, mas de tendência esquerdista, estabelece o Conselho Militar Nacional, convidando para integrá-lo elementos opositores ao governo anterior e esquerdistas. 

Um ano depois, em janeiro de 1982, Bouterse nomeia um governo civil-militar, liderado pelo primeiro ministro nacionalista Errol Halibux, líder da União de Trabalhadores e Agricultores. Em dezembro de 1982, em meio a uma onda de protestos, as forças de segurança assassinam quinze membros da oposição, o que leva a Holanda a suspender toda ajuda ao pais. O regime se volta, então, para Cuba, que envia assessores militares e civis, o que, da mesma forma que anteriormente na Guiana, preocupa o regime militar brasileiro. Para resolver a situação o General Danilo Venturini foi enviado pelo presidente Figueiredo para oferecer um pacote de ajuda ao pais, em troca do cancelamento da cooperação com os cubanos, o que foi obtido. 

A invasão norte-americana à Granada, por sua vez, torna a situação interna e externa muito tensa. Em 1984 eclode uma onda de greves, pois nos anos 1980 a economia encontrava-se em declínio e gerava turbulências políticas, agravados pelos embargos e corte da ajuda externa. Para complicar, em 1986 os negros Maroons da floresta iniciam uma guerrilha no interior, na fronteira com a Guiana Francesa (que durará até 1994). Neste  contexto, o pais desenvolve uma política externa mais agressiva, visando vencer o isolamento. Não possuindo conexões com o resto da América do Sul e sendo o único pais de língua holandesa, o Suriname estava voltado para a Europa, que agora o boicotava. O Suriname, que já integrava a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, o SELA, a OEA, o Movimento dos Paises Não-Alinhados, passou a ser membro associado do CARICOM. 

Em 1987 a Assembléia Nacional (22 membros eleitos e 11 representantes dos sindicatos) promulgou uma nova constituição, institucionalizando a vida política do pais. A Frente pela Democracia e o Desenvolvimento triunfou nas eleições de janeiro de 1988, com Remsewak Shnkar se tornando presidente. Em junho de 1989 ele assinou um acordo com a guerrilha, permitindo que ela permanecesse armada no interior. Mas isto não pôs fim à instabilidade, pois Bouterse, que era comandante do exército, ficou extremamente descontente com o acordo e, em dezembro de 1990, derrubou o governo, com a Assembléia nomeando Johan Kraag presidente provisório. 

Os Estados Unidos e a Holanda acusaram Bouterse de estar envolvido no tráfico de drogas e ameaçaram invadir o pais. Sem mais alternativas, nas eleições de maio deste ano, a Nova Frente, uma ampla coalizão de partidos civilistas e movimentos étnicos de oposição, venceu as eleições, levando Runald Ronaldo Venetiaan à presidência. Era o fim da Era Bouterse, embora não de sua influência. 

4. Os desafios da globalização e as relações com o Brasil 
Na Guiana, com a ascensão do governo Jagan, encerraram-se em 1992 quase três décadas de domínio do PNC. Na condição de um dos mais tradicionais políticos marxistas latino-americanos desde os anos 1950, ele surpreendeu a opinião pública ao permitir o  deslocamento de tropas norte-americanas pelo território guianense para treinamento em  operações na selva. O Brasil temeu que as bases que os EUA possuíam no Panamá, e que deveriam ser fechadas, fossem transferidas para a Guiana. Segundo Jagan, as forças americanas estavam no pais para combater o narcotráfico e ajudar a desenvolver o interior, onde as riquezas permaneciam quase intactas: ouro, bauxita, diamantes, madeira e solo agriculturável. 

No campo econômico, Jagan seguiu as políticas do Fundo Monetário Internacional, propondo a economia de mercado para solucionar os problemas sócio-econômicos como a pobreza, que atingia 80% da população. As medidas liberais ortodoxas, destinadas a conter a inflação e o déficit geraram greves, protestos e ondas de violência. Enquanto isto, a influência dos barões da droga não cessava de crescer. Mas em 1997 Cheddi Jagan morre e sua esposa, Janet Jagan, é eleita para sucedê-lo, em meio a denúncias de fraude. Novas ondas de violência sacodem o pais, com fortes contornos étnicos, pois o PPP era majoritariamente hindu, enquanto o PNC possuía bases entre os afro-descendentes. 

A mediação do CARICOM promoveu um frágil pacto, pois Desmond Hoyte questionava o partido dominante. Em 1999 Janet Jagan renuncia "por motivos de saúde" e o ministro da Fazenda Bharrat Jagdeo, do partido governista PPP, foi nomeado presidente. Apesar de formado na antiga União Soviética, ele ocupou cargos em organismos financeiros internacionais e implementava políticas liberais desde 1995, como ministro da Fazenda. Em 2001 ele foi eleito presidente, sendo reeleito em 2006. Apesar da estabilidade macroeconômica e do crescimento logrados, os negros seguem sendo discriminados, o que gera inúmeros conflitos políticos. Ao mesmo tempo o crime organizado não cessa de crescer.

No Suriname, o presidente Runald Ronaldo Venetiaan, que assumiu em 1991, reduziu o orçamento de defesa em 50% e o efetivo do exército em 66%, como forma de eliminar as forças armadas como ator político desestabilizador. Da mesma forma, a guerra civil foi oficialmente encerrada em 1994, sob a mediação do Brasil, e o litígio com a Guiana e foi  remetido às instâncias da ONU. Neste contexto, a cooperação com a Holanda foi retomada, bem como as relações com os Estados Unidos, nos campos da segurança, economia e diplomacia. No plano econômico o governo Venetiaan procedeu ao clássico ajuste estrutural neoliberal, que neste período foi mais ou menos universal (110 empresas para-estatais foram privatizadas). A derrubada da inflação e a relativa estabilidade macro-econômica, todavia, criaram uma situação social difícil, com o aumento da pobreza e ações de protesto, como a ocupação da represa de Afobakka. 

Apesar de alguns momentos de tensão, pois os avanços sociais são lentos e Bouterse segue sendo um político importante, o Suriname logrou superar a instabilidade e os conflitos abertos da época anterior. Em 1996 Jules Wijdenbosch foi eleito presidente, tendo governado até o ano 2000, quando Venetiaan foi novamente eleito e reeleito em 2005, para um mandato que se encerra em 2010. O presidente pertence à Nova Frente pela Democracia e pelo Desenvolvimento, uma coalizão oposta aos militares. Mas os partidos se definem ainda, em grande parte, linhas étnicas, num contexto de fragmentação parlamentar. Em 2000 Bouterse foi condenado in absentia pelo Tribunal de Haia por tráfico de drogas, sendo expedido um mandado de prisão, o que o obriga a não se afastar do país. 

Novas perspectivas estão se abrindo com a exploração de jazidas de ouro e o início da produção de petróleo e gás, especialmente off-shore, explorados pela dinamarquesa Mearkoil e pela norte-americana Occidental. As divisas estão auxiliando o país a iniciar o desenvolvimento de sua precária infra-estrutura. Já o ouro, é fonte de grandes problemas, pois a maioria da exploração é feita por imigrantes brasileiros ilegais, que hoje representam em torno de 10% da população. Obviamente o país tem problemas graves com o crime organizado e isto torna as coisas ainda mais complicadas. Em 1998 o Suriname passou a integrar o Banco Islâmico de Desenvolvimento. 

Tanto a Guiana como o Suriname têm se aproximado do Brasil e feito certa inflexão  em direção à integração Sul-Americana desde a Cúpula de Brasília em 2000, com ambos países participando a construção da CASA, a Comunidade Sul-Americana de Nações. O declínio das vantagens obtidas através dos Acordos de Lomé e a política de controle 100% nos aeroportos holandeses em relação aos cidadãos surinameses, tem reforçado a percepção de que uma aproximação com a América do Sul e, especialmente, com o Brasil, representam uma nova opção viável. 

Os problemas residem na reduzida complementaridade econômica, baixo volume de comércio, falta de conexões de transporte (especialmente com o Suriname), dificuldades em relação à diversa composição étnico-cultural e linguística e, de certa forma, à presença ativa dos EUA na política de segurança e combate ao narcotráfico e delitos transnacionais, vinculada à ajudas específica. É bem verdade que o Brasil começa a responder, através de diversos acordos na área econômica, de segurança (policial e militar), sanitária e cultural, educacional e científico-tecnológica. Todavia, há que incrementar o interesse e a divulgação das oportunidades de cooperação junto aos diversos atores brasileiros, guianenses e surinameses. 

Os setores políticos daqueles países, favoráveis à cooperação com o Brasil, necessitam contar com o apoio de iniciativas concretas e de grande visibilidade, para contribuírem para voltar seus países para o sul. Por outro lado, os diferendos fronteiriços bilaterais e com a Venezuela e Guiana Francesa estão sendo encaminhados através dos mecanismos jurídicos adequados. Embora não se vislumbre uma solução de curto prazo, está excluída qualquer tensão nesta área, o que cria um clima favorável ao desenvolvimento e à cooperação regional, especialmente no tocante à dimensão amazônica, que pode ser também uma ferramenta útil para a aproximação. Enfim, precisamos conhecer e interagir mais intensamente com esta "outra América do Sul", que representa um flanco importante para a integração, desenvolvimento e segurança do sub-continente. 


2005 La Guayana Esequiba – Zona en Reclamación. Instituto Geográfico Simón Bolívar  Primera Edición

Nota del editor del blog: Al referenciarse a la República Cooperativa de Guyana se deben de tener en cuenta los 159.500Km2, de territorios ubicados al oeste del río Esequibo conocidos con el nombre de Guayana Esequiba o Zona en Reclamación sujetos al Acuerdo de Ginebra del 17 de febrero de 1966.

Territorios estos sobre los cuales el Gobierno Venezolano en representación de la Nación venezolana se reservo sus derechos sobre los territorios de la Guayana Esequiba en su nota del 26 de mayo de 1966 al reconocerse al nuevo Estado de Guyana:

“...por lo tanto, Venezuela reconoce como territorio del nuevo Estado, el que se sitúa al este de la margen derecha del río Esequibo y reitera ante la comunidad internacional, que se reserva expresamente sus derechos de soberanía territorial sobre la zona que se encuentra en la margen izquierda del precitado río; en consecuencia, el territorio de la Guayana Esequiba sobre el cual Venezuela se reserva expresamente sus derechos soberanos, limita al Este con el nuevo Estado de Guyana, a través de la línea del río Esequibo, tomando éste desde su nacimiento hasta su desembocadura en el Océano Atlántico...”



Mapa que señala el Espacio de Soberanía Marítima Venezolana que se reserva, como Mar Territorial mediante el Decreto Presidencial No 1152 del 09 de Julio de 1968